Conto…
Tião é um desses homens da roça, morador do sertão nordestino. Mora numa casa pequena, mas que consegue abrigar as duas esposas e os doze filhos. Uma família “feliz” que nem sempre tem o que comer e nem sempre tem onde trabalhar.
A mulher, a primeira, sai cedo para buscar água para cozinhar um pouco de feijão enquanto a segunda vai até a feira, longe, a pé, buscar a farinha. As filhas mais velhas se viram com as poucas coisas que tinham para fazer, como cuidar das filhas mais novas…
Homem macho, de poucas palavras e muitos filhos. Tião não era o único na região, iguais a ele haviam vários. Mas ele era o único a ter doze filhas, mas ele já tinha tido muitas outras… E como nem sempre tinha o que dar de comer a elas, ele se virava como conseguia, sempre saia com uma das meninas e voltava com notas suficiente para comprar farinha, feijão e guardar um pouco dentro do colchão…
Certo dia chegou Quinzito a sua porta. Um rapaz magricela, porqueira, com um chapéu nas mãos. Acanhado, manifestou seu interesse pela filha mais velha de Tião, que coçou a cabeça e riu com os poucos dentes que tinha na boca.
Depois de uma pequena prosa, o rapaz foi-se embora e passou a dedicar-se ao trabalho. De sol a sol e às vezes de lua a lua – todos os dias, na esperança de juntar seus trocados para ter o que tanto queria. Levou algum tempo, mas lá estava ele, diante do velho Tião. Chapéu em mãos, cabeça baixa, voz baixa e um medo que podia ser sentido a distância. Depois de respirar fundo e buscar forças em algum lugar, ele olhou Tião rapidamente e disse o que pretendia. Sacou seus trocados do bolso e colocou na mão dele que contou nota por nota calmamente e irritou-se ao perceber que não tinha a quantia estipulada por ele.
Quinzito tinha juntado apenas cento e oitenta e seis contos e achou que fosse suficiente para pagar por apenas um beijo de Dora. Ele queria muito isso. Apenas um beijo antes de levá-la para sua casa. Tião? Coçou a cabeça e sorriu com os poucos dentes que tinha na boca. E o rapaz foi-se embora cabisbaixo, chutando as pedrinhas que encontrava pelo chão. Levou consigo os cento e oitenta e seis contos e a vontade de um beijo. Tião queria os trezentos contos. Não aceitou a metade, nem mesmo sendo por apenas um beijo. Sem o dinheiro, disse Tião: “nada de beijo, nada de filha”. Afinal, vai que depois do beijo o rapaz desistisse da pobre.
E os dias se seguiram…
A filha de Tião ficou sabendo de todo o esforço de Quinzito e não gostou de saber que ele estava se esforçando para pagar por ela a seu velho pai. Quinzito era bom rapaz, mas era feio, magricela, tinha pernas tortas e parecia meio abobado. Não! Ela queria um rapaz bonito, bem vestido e perfumado lá da cidade. Com aquelas camisas branquinhas, sapato preto brilhoso e calça de visgo. Era um desses que ela queria. Mas o querer da moça não interessava ao pai, a ele somente interessava quanto ele iria receber pela pobre…
Numa manhã de sol quente queimando a ribeira. Dois desses moços da cidade foram ter com Tião. Foram logo perguntando das moças e Tião com um sorriso de poucos dentes bem faceiro mencionou que o moço levava a mais velha por trezentos contos. O moço feliz da vida, ofertou quinhentos por Dora, a mais bonitinha da filhas de Tião que ainda coçou a cabeça e mandou chamar a pobre moça que foi-se embora com os moços da cidade.
Dias depois, Quinzito foi as pressas ter com Tião, já tinha a soma completa para levar Dora com ele, mas era tarde, a pobre já tinha sido comprada por outro. Ele ficou desorientado ao saber. Jogou o chapéu no chão e foi logo pisando sobre ele, queria dizer desaforos aquele velho homem. Pensou em inúmeras ofensas: velho safado, sem vergonha, imoral… Mas nada disse, apenas ouviu Tião dizer-lhe que pelos mesmos trezentos ele poderia levar qualquer uma das outras filhas mais velhas. Mas ele queria Dora, nenhuma das outras servia…
Quinzito voltou para casa cabisbaixo, levou com ele os seus trezentos contos que agora não servia para mais nada. Então, abandonou o trabalho e voltou a caçar com o cachorro, tão magrela quanto ele. Os contos ficaram guardados por um bom tempo dentro do colchão…
Certa vez, Quinzito levou a mãe para a cidade e deu a ela cinqüenta contos para comprar farinha, carne seca e outras coisinhas mais. Enquanto esperava encostado na carroça, mascava seu capim. Hábito antigo aquele. E ali, vendo o tempo passar, o rapazola avistou uma rapariga assanhada, trajando roupas curtas e coloridas. Maquiagem forte e cabelos soltos. Era Dora. Ela estava com outras moças na casa das diversões. Quinzito foi até lá e pagou dez contos para ficar com a jovem…
Entraram na casa de luzes avermelhadas, com degraus curtos e muitos quartos no andar de cima. Dora despiu-se e o ajudou com suas roupas. Beijou seu peito, acariciou sua pele. Quinzito só fazia olhar. Não sabia o que fazer… Dora já se mostrava experiente e tratou de deixar o rapaz a vontade… Menos de dez minutos depois estava o rapaz de volta ao seu cenário comum. Encostou-se na carroça e ficou a ver o tempo passar, como de costume…
Dora voltou para junto das outras moçoilas e lá ficou a esperar pelo próximo “cliente”… Quinzito ainda ficou a observá-la até a mãe voltar.
Por fim, jogou fora o capim, ajudou a mães com as poucas sacolas enquanto sentia-se homem pela primeira vez. Montou na carroça e conduziu sua mãe para casa… O amor por Dora passou naquele dia – a jovem de vestidinhos batidos perdidos no meio de suas pernas passou a ser só mais uma garota. E ele passou a ser homem com apenas dez contos…