Cansaço…

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Estava aqui a ler Álvaro de Campos, meu amigo de todas a horas e a palavra cansaço parece ser frequente em suas linhas e versos. De fato é… Acho que todos os escritores e poetas em algum momento, simplesmente: se cansam.

Eu estou cansada. Não da escrita, não da palavra…
Mas estou cansada de me sentir presa a algo que perdeu o sentido, o significado porque as coisas pra mim precisam obrigatoriamente ter um começo, um meio e um fim. Nada pode simplesmente ser eterno pra mim. A sensação de eternidade também me deixa cansada…

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar…
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.

Olho analiticamente, sem querer, o que romantizo sem querer…

Alvaro de Campos
(posterior a 1/2/1932)

outono_jura

E por assim ser, lembro-me com carinho de cada momento vivido com esse pedaço de mim. Sim, os blogs são isso pra mim: pedaços de todos nós. Conheci muitas pessoas interessantes e vem a mente aquela cena do filme “C´e posta per te” (Mensagem para você) com Tom Hanks e Meg Ryan. Na cena ela está se despendido de sua pequena livraria de esquina, andando pela loja já sem livros, em sua mente a lembrança viva de tantos momentos e por fim a mensagem na porta récem fechada:

“After 42 years we are closing our doors
We have loved being part of your lifes”

Então, eu tomo emprestado os dizeres dizendo:

“Depois de alguns outonos – as palavras escolheram silenciar-se:
Foi maravilhoso fazer parte da vida dos muitos que aqui vieram inúmeras vezes ao longo das estações!”

Não sei se eu terei outro blog ou não, no momento participo dos blogs de pessoas amigas, queridas conhecidas através das singularidades do Acqua…

Abraços meus e desejos muitos de dias felizes a todos!

As segundas e sextas eu estou no blog A Casa do Mago que é do mio amore, lá eu escrevo artigos sobre assuntos místicos as segundas e as sextas estou falando um pouco da história do povo Celta com o qual tenho uma relação bastante extreita…

 

Há cortejos, pompas, discursos
Na inauguração quotidiana dos meus sentimentos inúteis…
São iluminadas à veneziana por luzes contentes
As minhas decepções, e os meus desesperos vão em carrocel
Por uma necessidade fatídica do destino.

Agora, volto ao silêncio dos dias, da estação, da paisagem e fico a ouvir o canto agudo do pássaro. Sei que vou sentir saudades, mas não vou voltar!

 

Crédito das Imagens.
Foto 1. Um presente da caríssima Suzana Martins que me presenteou com essa visão da poesia de Álvaro de Campos. As vezes a perfeição está nos detalhes não é mesmo?

Foto 2. Foi enviada a mim pela querida Maria Augusta que me permitiu uma lembrança gostosa, um suspiro profundo e um sorriso de orelhas de quem sente saudades e deseja estar em casa, mesmo sabendo que de certa forma já está.

Movimento Natureza

Ao pensar nesse desafio, eu resolvi fazer algo bem simples que acho que todos nós podemos fazer.

Eu resolvi pensar em 10 (dez) coisas que eu fiz no decorrer de 2008 para fazer a diferença no sentido de estar em contato direto com a natureza e mais que isso: respeitá-la como realmente ela merece.

Então vamos a minha lista:

01 – Reciclagem de lixo.
Vou ser sincera: não é fácil convencer as pessoas que é algo simples de fazer. As pessoas mais velhas (nem todas, é claro) mas algumas delas tem uma enorme dificuldade de compreender que isso é algo necessário. Mas aqui em casa tem funcionado e temos separado o lixo orgânico (que vai para o jardim) do lixo reciclado (papéis, latas, garrafas, entre outros).

02 – Entrei em contato com a empresa responsável pela coleta de lixo reciclado da minha região aqui em São Paulo.
Fiquei surpresa: eles foram rápidos no atendimento, vieram até minha residência e me informaram dos horários da coleta que é feita uma vez por semana, sempre as quintas-feiras no período da manhã. Fiquei muito satisfeita com o atendimento que resolveu meu problema com a coleta do lixo reciclado que não era feito na minha rua. Infelizmente poucas pessoas se preocupam com isso por aqui, mas já não sou mais a única a usar o serviço de coleta verde.

03 – Aproveitei muito mais o jardim de minha casa.
É lamentável dizer isso: ele estava totalmente abandonado, as plantas estavam precisando de cuidados: poda, replantio, adubagem, entre outros. Todos os sábados pela manhã passamos a nos dedicar ao nosso jardim, que está muito bonito, as plantas estão mais fortes e felizes. Regamos o jardim duas vezes por dia, a noite, o cheiro de terra molhada ocupa toda a casa. Delicioso.

04 – Diminuímos a quantidade de lâmpadas em casa.
Que desafio: eu não gosto de claridade, mas o mio amore tinha verdadeira paixão por lâmpadas acesas. Não foi fácil. Eu confesso que não gosto de lâmpadas no teto, prefeiro iluminação lateral no cômodo feitas por abajur ou luminárias. Não temos isso ainda, mas boa parte das luzes da casa ficam apagadas e a sensação de aconchego é muito melhor. O escuro é acolhedor.

05 – Geral na parte elétrica.
Assunto delicado: vocês não fazem idéia do quanto uma fiação antiga pode consumir energia. Mio amore trocou alguns dijuntores elétricos e já sentimos a diferença no consumo. Gente, a questão nem é o quanto se paga e sim o quanto se desperdiça de energia com maus contatos, fiação que pode causar curto sem que a gente perceba. A gente precisa sim prestar atenção nesses pequenos detalhes.

06 – Tiramos a televisão da cozinha.
Podem achar engraçado: mas o assunto é sério. Não tinha como conversar durante o jantar ou almoço. Quando não era o noticiário esportivo, era alguma série. Ninguém conversava à mesa. Agora temos uma cozinha gostosa, aconchegante e sem televisão. Todo mundo conversa, se alimenta calmamente, sem receber informações e muitas vezes desnecessárias. A refeição ficou muito mais agradável.

07 – Elaborei um jardim de ervas.
Valorizando a vida: é interessante aproveitar pequenos espaços a sua volta. No caso, eu aproveitei o beiral da cozinha. Fiz uso de sementeiras, panelas que eu já não usava mais e mudei o visual, podendo acompanhar o lento crescimento de minhas amigas: salsa, manjericão, hortelã e oregano. A cozinha ficou com um perfume todo especial. Sempre que regamos o pequeno jardim, o perfume das “meninas” invadem a cozinha e isso sempre acontece na hora das refeições.

08 – Diminuí o consumo de papel.
Nada fácil. Já dá pra imaginar o quanto foi difícil essa tarefa pra mim, mas imagine uma escritora consumindo pouco papel. Nem me fale. Foi humanamente complicado, mas eu consegui. No ano passado usei apenas duas resmas de sulfite. Geralmente eu consumia dez a quinzes resmas. Foi um grande avanço. Passei a usar muito mais o espaço virtual: google docs, pen drives, entre outros…

09 – Redução do consumo de água.
Descoberta interessante: passei a lavar o quintal a cada quinze dias e nos demais dias apenas passo pano com desifentante natural porque eu tenho um cão em casa e preciso ter cuidado com a higiene para o bem da saúde dele. Afinal, ele é meu filhote. O fato é que a limpeza é a mesma e o consumo de água diminui considerávelmente.

10 – Integração com a natureza.
Isso surpreendeu até os vizinhos: sempre gostei de chás, mas geralmente acabava comprando ervas e saquinhos de chá. Pois bem, resolvei conhecer mais de perto as folhas que tenho no meu quintal: jaboticabeira, amoreira, pitangueira, goiabeira, limoeiro, laranjeira. Não, a gente não mora no sítio. Moramos em São Paulo e temos tudo isso em nosso quintal graças aos Deuses. Bem, resolvi experimentar todas essas folhas e depois de uma pesquisa cuidadosa, servi chá de folha de laranja com limão num jantar aqui em casa. Foi a sensação. Além de deixar a casa com um cheiro maravilhoso, ainda agradou deveras com um bolinho de fubá. Também servi chá de folhas de amora que é extremamente saboroso e acompanha de forma perfeita um pão feito em casa.  E os experimentos não pararam por aí. A folha da jabuticabeira também dá um chá muito gostoso, assim como a folha da goiabeira, mas com essa especificamente é preciso tomar cuidado porque ela enibe as funções intestinais.

Bem, foi isso que eu fiz.
Claro que foi apenas um pequeno passo diante de tantas coisas que posso fazer, mas já é um começo e me senti feliz em saber que eu consegui fazer a diferença junto a natureza que está em mim e da qual faço parte.

E para celebrar o dia da Terra (esse lugar maravilhoso) plantei novas sementes que dentro de 15 dias (aproximadamente) darão sinal de vida…

Mas e você? Conseguiria fazer uma listinha com suas ações ao longo do ano que contribuíram para que estivesse mais próximo da natureza a sua volta?

Aproveito para agradecer a Georgia e a Beth/Lilas por essa iniciativa maravilhosa. Lembremos que é preciso muitas iniciativas para que o nosso mundo seja sempre um lugar melhor. Todos nós fazemos o máximo que podemos para que o amanhã tenha possibilidade de se tornar um hoje agradável para todas as formas de vida existente nesse planeta…


Como é que você escreve?

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A Meire me passou um desafio delicioso porque eu sou ré confessa, adoro escrever e sempre quis ter uma letra linda… hahahahahaha

Vivia usando o famoso caderno de caligrafia para aperfeiçoar a bendita caligrafia. Há anos não faço mais isso, mas a minha letra é legível (eu acho). Como sou ambi destra, escrevo com as duas mãos.

Preciso explicar: sou canhota por definição, mas no meu tempo de escola, isso era algo absurdo, praticamente inconsebível (não me pergunte a razão). Mas por esta razão, acabei praticamente sendo obrigada a aprender a escrever com a mão direita. Não foi fácil, mas também não foi tão difícil assim… Valeu pelo desafio dos dias que passaram!

Então vamos ao desafio:
De que jeito voce escreve?

Escreva no papel:

De que jeito voce escreve?
Se voce é corajoso/a mostre-nos a sua letra.
Esta é a minha.

Assine seu nome.
Fotografe o teu escrito.

Proximo passo:

Faça um post com a foto da tua caligrafia.
Link quem te desafiou.

Escolha 5 vitimas para desafiar.

Vá ao blog de cada uma das vitimas e avise que as desafiou.
Vá ao blog de quem te desafiou e avise que o desafio foi cumprido.

E eu desafio:

1- Suzana Martins
2 – Neto
3 – Poetriz
4 – Lyani
5 – Marco Antonio

Rascunhos…

paperplanes1catia chien

Hoje, finalmente uma série antiga de poemas deixou de ser rascunhos…
Ando em silêncio, aqui dentro. Fechada para o mundo… Bebendo muita água e chá quente… Não está frio, mas também não está quente e eu sigo tecendo versos.

Coisas do outono.
Agora vou voltar para o meu mundo!
Porque amanhã o outono acaba…
Sabe como é?

 

Dando Crédito.
A imagem veio daqui

E viva o marketing…

image Há alguns anos atrás eu era apaixonada pelas campanhas publicitárias de cigarros. “O seu jeito Calton de ser” “O dia só tem 24 horas! Então chega mais cedo”  dizeres que mostravam jovens bonitos vivendo a vida e levando seu maço de cigarros nos bolsos. “Venha para o mundo de Malboro!” e por aí vai…

Nem por isso eu fumei ou senti vontade de fazê-lo…

image Ah! Sim, tinha um comercial da Coca Cola Light que era muito legal, isso lá pela década de 90. Muitas de suas campanhas eram muito bem planejadas, mas isso não fez ingerir o tal liquido gasoso.

Definitivamente não…

Também não entendi o comercial da Brahma com o Ronaldo (o tal do fenônemo) que ligou seu suor ao suor do copo de cerveja e se assume ao final do mesmo como sendo “brahmeiro” – ok. Para tudo! Isso é qualquer relação com sua vida pessoal? Imagino eu que sim…

Tudo bem, eu não gosto dele mesmo. Então não vou passar a beber cerveja por causa disso! huahuahuahua

E então, lá estava eu lendo meu reader e vi um post sobre o famoso Leite Ninho que eu tomo e adoro e nunca vi (confesso) nenhuma propaganda sobre ele. Gosto dele porque o sabor me agrada e eu nunca fui fã de leite.

image Minha indignação é pensar que as pessoas se deixam realmente convencer pelas propagandas. Eu já gostei de assistir comerciais, mas hoje não tenho mais paciência. Assim como não tenho paciência com posts publicitários, que ficam empurrando para os meus olhos seus produtos tolos…

Eu consumo o que eu gosto e o que me chama a atenção. Experimento coisas novas e troco de marca se me sentir segura com a qualidade do produto novo. Gosto dos atuais chocolates da lacta e reclamo muito do novo Nescau (que está horrível). O bom e velho Toddy está uma delícia…

E nenhum comercial é capaz de me induzir a consumir algo que eu não goste ou que eu não queira. A propósito, acabo de me lembrar um comercial que eu acho muito legal. Cartões Mastercard:

 

- Uma xícara de chá quente a uma e dez da manhã…
Doze reais…
- Um livro de poesia de Álvaro de Campos
Setenta e sete reais
- O cachorro dormindo na cama enquanto eu escrevo
Não tem preço…

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E nem por isso eu tenho um mastercard…

 

Antes que eu me esqueça: isso não é propaganda…

Era uma vez um outono…

Coletânea Artesanal

Edição de Abril

Enviem seus escritos até o dia 25 de abril para participar da edição de abril do Coletânea Artesanal – o tema desta edição é um convite para quem gosta da magia do Outono.

Drummond certa vez disse: “O outono é uma estação mais da alma que do coração!”

Então, se permita viver através de suas palavras a magia dessa estação.

Seus textos devem ser enviados para: coletaneartesanal@gmail.com – sendo que serão selecionados 05 poemas e 05 contos para a publicação que estará no ar no dia 30 de abril no endereço eletrônico www.coletaneartesanal.wordpress.com

Era uma vez um outono…

Ausência

farfalla

…nem sei se sinto ou não!
Sei apenas que acabou e não há meios de trazê-la de volta.
Já ensaiei isso várias vezes, mas é sempre o mesmo caminho…

O fim insiste em estar lá.
Se desenha de diferentes formas…
Acabou mesmo…
Eu sei que deveria sorrir e festejar: é um grande momento, não é?
Lamento, mas preciso dizer que não!
É o meu pior momento!

E sempre que a música toca, lembro-me da menina que surgiu do nada e falou comigo numa tarde de 2006 – ela descobriu quem era aos poucos, ali, ao meu lado e se tornou mulher no decorrer de uma vida.  No começo pensei que ela era uma vilã, mas depois, percebi apenas que ela era humana, tanto quanto conseguia ser…

…mas dizem que passa!
Passou das outras vezes…

Loreena McKennitt- All Souls Night

Teorias…

boolevard são bento

S.a.u.d.a.d.e.s…
Será que existirá depois que tudo isso passar?

 

 

 

Créditos da Imagem.
Boolevard São Bendo-2002
Rayssa Campos

Movimento Natureza

Acho que a maioria já leu sobre a proposta da Beth do blog Mae Gaia e da Georgia do Blog Saia Justa.

Assim sendo, no dia 22 de abril – data em que o Brasil celebra seus 509 anos de vida pós “descobrimento” – há quem chame de invasão… Enfim, é apenas uma data simbólica – elas vem nos pedir para agir diante de uma questão delicada: a natureza.

Para isso a proposta é a seguinte:

1) Confirmar participacao no blog Movimento Natureza que foi criado exclusivo para discutirmos esse tema;
2) Levar o selo e fazer uma chamada no seu blog.


 

3) Escolhe um projeto que for melhor para você fazer.
No blog http://movimento-natureza.blogspot.com tem muitas dicas do que você pode fazer para participar. Trata-se de um desafio… Então, pense em algo e faça… Apenas lembrando que não se trata de uma blogagem coletiva, trata sim de você fazer algo pela natureza e como você também faz parte da natureza desse planeta, não esqueça que seja lá qual for a sua opção, estará fazendo também por você…

Participem…

+ 1 selinho…

Esse o Acqua recebeu da Lyani

imagem1pypE indico para:

1 – Maria Augusta
2 – Suzanna Martins
3 – Lua Durand 
4 – Marco Antonio
5 – Lyz Kasper

“Vende-se meninas”

Conto…

Tião é um desses homens da roça, morador do sertão nordestino. Mora numa casa pequena, mas que consegue abrigar as duas esposas e os doze filhos. Uma família “feliz” que nem sempre tem o que comer e nem sempre tem onde trabalhar.

A mulher, a primeira, sai cedo para buscar água para cozinhar um pouco de feijão enquanto a segunda vai até a feira, longe, a pé, buscar a farinha. As filhas mais velhas se viram com as poucas coisas que tinham para fazer, como cuidar das filhas mais novas…

Homem macho, de poucas palavras e muitos filhos. Tião não era o único na região, iguais a ele haviam vários. Mas ele era o único a ter doze filhas, mas ele já tinha tido muitas outras… E como nem sempre tinha o que dar de comer a elas, ele se virava como conseguia, sempre saia com uma das meninas e voltava com notas suficiente para comprar farinha, feijão e guardar um pouco dentro do colchão…

Certo dia chegou Quinzito a sua porta. Um rapaz magricela, porqueira, com um chapéu nas mãos. Acanhado, manifestou seu interesse pela filha mais velha de Tião, que coçou a cabeça e riu com os poucos dentes que tinha na boca.

Depois de uma pequena prosa, o rapaz foi-se embora e passou a dedicar-se ao trabalho. De sol a sol e às vezes de lua a lua – todos os dias, na esperança de juntar seus trocados para ter o que tanto queria. Levou algum tempo, mas lá estava ele, diante do velho Tião. Chapéu em mãos, cabeça baixa, voz baixa e um medo que podia ser sentido a distância. Depois de respirar fundo e buscar forças em algum lugar, ele olhou Tião rapidamente e disse o que pretendia. Sacou seus trocados do bolso e colocou na mão dele que contou nota por nota calmamente e irritou-se ao perceber que não tinha a quantia estipulada por ele.

Quinzito tinha juntado apenas cento e oitenta e seis contos e achou que fosse suficiente para pagar por apenas um beijo de Dora. Ele queria muito isso. Apenas um beijo antes de levá-la para sua casa. Tião? Coçou a cabeça e sorriu com os poucos dentes que tinha na boca. E o rapaz foi-se embora cabisbaixo, chutando as pedrinhas que encontrava pelo chão. Levou consigo os cento e oitenta e seis contos e a vontade de um beijo. Tião queria os trezentos contos. Não aceitou a metade, nem mesmo sendo por apenas um beijo. Sem o dinheiro, disse Tião: “nada de beijo, nada de filha”. Afinal, vai que depois do beijo o rapaz desistisse da pobre.

E os dias se seguiram…
A filha de Tião ficou sabendo de todo o esforço de Quinzito e não gostou de saber que ele estava se esforçando para pagar por ela a seu velho pai.  Quinzito era bom rapaz, mas era feio, magricela, tinha pernas tortas e parecia meio abobado. Não! Ela queria um rapaz bonito, bem vestido e perfumado lá da cidade. Com aquelas camisas branquinhas, sapato preto brilhoso e calça de visgo. Era um desses que ela queria. Mas o querer da moça não interessava ao pai, a ele somente interessava quanto ele iria receber pela pobre…

Numa manhã de sol quente queimando a ribeira. Dois desses moços da cidade foram ter com Tião. Foram logo perguntando das moças e Tião com um sorriso de poucos dentes bem faceiro mencionou que o moço levava a mais velha por trezentos contos. O moço feliz da vida, ofertou quinhentos por Dora, a mais bonitinha da filhas de Tião que ainda coçou a cabeça e mandou chamar a pobre moça que foi-se embora com os moços da cidade.

Dias depois, Quinzito foi as pressas ter com Tião, já tinha a soma completa para levar Dora com ele, mas era tarde, a pobre já tinha sido comprada por outro. Ele ficou desorientado ao saber. Jogou o chapéu no chão e foi logo pisando sobre ele, queria dizer desaforos aquele velho homem. Pensou em inúmeras ofensas: velho safado, sem vergonha, imoral… Mas nada disse, apenas ouviu Tião dizer-lhe que pelos mesmos trezentos ele poderia levar qualquer uma das outras filhas mais velhas. Mas ele queria Dora, nenhuma das outras servia…

Quinzito voltou para casa cabisbaixo, levou com ele os seus trezentos contos que agora não servia para mais nada. Então, abandonou o trabalho e voltou a caçar com o cachorro, tão magrela quanto ele. Os contos ficaram guardados por um bom tempo dentro do colchão…

Certa vez, Quinzito levou a mãe para a cidade e deu a ela cinqüenta contos para comprar farinha, carne seca e outras coisinhas mais. Enquanto esperava encostado na carroça, mascava seu capim. Hábito antigo aquele. E ali, vendo o tempo passar, o rapazola avistou uma rapariga assanhada, trajando roupas curtas e coloridas. Maquiagem forte e cabelos soltos. Era Dora. Ela estava com outras moças na casa das diversões. Quinzito foi até lá e pagou dez contos para ficar com a jovem…

Entraram na casa de luzes avermelhadas, com degraus curtos e muitos quartos no andar de cima. Dora despiu-se e o ajudou com suas roupas. Beijou seu peito, acariciou sua pele. Quinzito só fazia olhar. Não sabia o que fazer… Dora já se mostrava experiente e tratou de deixar o rapaz a vontade… Menos de dez minutos depois estava o rapaz de volta ao seu cenário comum. Encostou-se na carroça e ficou a ver o tempo passar, como de costume…

Dora voltou para junto das outras moçoilas e lá ficou a esperar pelo próximo “cliente”… Quinzito ainda ficou a observá-la até a mãe voltar.

Por fim, jogou fora o capim, ajudou a mães com as poucas sacolas enquanto sentia-se homem pela primeira vez. Montou na carroça e conduziu sua mãe para casa… O amor por Dora passou naquele dia – a jovem de vestidinhos batidos perdidos no meio de suas pernas passou a ser só mais uma garota. E ele passou a ser homem com apenas dez contos…

São Paulo – Metrópole…

Estava eu a ler os poemas que escrevi sobre essa cidade quando aqui cheguei, há anos atrás. É engraçado perceber que eu procurei a poesia de Mário de Andrade por todos os cantos desta cidade…

Então, me deparei com uma frase escrita logo depois de inúmeras folhas em branco (foi a forma que eu encontrei para definir o vazio que ficou em mim depois de mudanças radicais, ocorridas no decorrer de mil novecentos e noventa e quatro. Ano do qual, por mais que eu tente, não consigo esquecer).

Amo São Paulo com todo o meu ódio”…
Está frase foi dita por um mineiro memorável de São Paulo, Carlito Maia, um publicitário de grandes frases e grandes feitos, autor do tal “Lula lá”…

Mas por que a frase sobre São Paulo causa tanto impacto? Qual o significado real por trás da ênfase?

Se perguntar as pessoas sobre a cidade de São Paulo, vai ouvir milhares de coisas diferentes: algumas coisas boas, outras ruins demias para se ouvir, mas uma coisa ficará bem claro: ou a gente ama ou odeia essa cidade.

Porque São Paulo é uma cidade com ruas por onde o paulista não anda porque tem medo ou porque só transita carros, que evitam os sinais vermelhos e se esquecem de passos que podem habitar as ruas tanta quanto suas rodas…

É uma cidade com seus poucos bairros ricos onde quem ousa caminhar se pergunta se alguém realmente mora nos casarões circundados por muros, grades, aparatos mirabolantes de segurança. E nos quais o único indício da presença humana é a súbita aparição do rosto de um vigia secundada pelo latido de um cão. Fica impossível não se perguntar: são residências ou casas mal-assombradas?

E o que tem a frase a ver com o centro, onde há tantos buracos nas calçadas que é melhor andar no meio da rua, apesar do lixo e das poças de água parada? Com a Paulista, onde os meninos passam o dia vendendo bala para sustentar aqueles que deveriam sustentá-los e ali ao lado, os engravatados, lidando com seus milhões…

Nesse contexto em que o medo impera, só mesmo quem está drogado pelo próprio imaginário, pelo sonho de riqueza que a cidade permite realizar, ama-a sem ódio. Porque há quem a desenhe com formas desumanas, injustas e assustadoras.

São Paulo repugna tanto quanto fascina, pela possibilidade que o talento tem de desabrochar… A Semana de 22 não aconteceu aqui por acaso. A irreverência de Oswald é tão vigorosa quanto à sociedade paulista pode ser opressora e suas palavras nos remetem a um presente constante, que viveu ontem, vive hoje e com toda certeza amanhã aindaestará vivendo .

Contra todas as catequeses… Todos os importadores de consciência enlatada… As idéias cadaverizadas.” Uma irreverência destemida, na tradição dos bandeirantes. Como a de Mário de Andrade, que ousa se referir ao país num dos seus ensaios dizendo que “apesar de suas cores tão vivas só produz indivíduos de meias tintas“.

A mesma cidade que é repulsiva também é irresistível por tudo que nos proporciona: aqui há a tão sonhada liberdade de criação, a exigência constante de competência, e a troca que favorece a continuidade e são a esperança de uma solidariedade renovadora, capaz de transformar com o espírito bandeirante a quarta metrópole do mundo numa metrópole exemplar, onde a caminhada, além de possível, seja prazerosa.

Para chegar a isso, é preciso sair do ninho, ir além do medo e das próprias singularidades… Não pode se fazer de cego pelas esquinas e nem mesmo de surdo pelas ruas, porque essa cidade pulsa em nós e pulsa ainda mais forte naqueles que não a amam. Por que odiar São Paulo é o primeiro passo para amá-la no momento seguinte. Ela te conquista pelos prazeres de se viver aqui, sabendo que nem tudo é perfeito, mas não é a cidade. São as pessoas que vivem a cidade!

São Paulo! Metrópole
…será possível ser poesia?

No fundo do baú…

Estou revirando meus baús esses dias.
Chega um momento em que você precisa dar atenção a todas aquelas coisas guardadas, abandonadas, esquecidas…

Dentre tantas coisas guardadas, encontrei o antigo rascunho de um poema escrito por mim em 2001 – quando conheci um jovem estranho, cheio de neuras e muitas manias engraçadas…

Ele gostava de conversar e conhecia como poucos os mistérios das Artes Plásticas…Vivia freqüentando os corredores da Universidade de Coimbra, mas não estudava lá… Ele gostava de música clássica e costumava me dar botões de rosas.

Dizia que os botões poderiam trazer sorriso aos meus tristes lábios… Não sei exatamente se era o botão ou o comentário que trazia o tal sorriso em mim.

Nunca nos fizemos perguntas… Ele gostava de andar e tinha um passo rápido, como se tivesse sempre atrasado. Adorava café de máquinas e suco gelado do refeitório… Conversava muito com as cozinheiras que eram vistas com freqüência rindo de seus comentários.

Ele era tímido, escondia o sorriso com as mãos e saía apressado para algum lugar onde não tinha ninguém… Sempre sumia – eu nunca soube o destino daqueles passos. Confesso que nunca ocorreu-me a curiosidade da descoberta quanto a isso.

Geralmente, ele me encontrava quando eu estava sentada embaixo de alguma árvore, lendo algum livro, então, ele acabava fazendo algum comentário sobre o livro que eu estava lendo…

Ele não falava de pessoas, mas falava de personagens, com uma intimidade tão grande que eu às vezes me confundia com seus dizeres…

As pessoas o chamavam de maluco. Eu nunca o chamei, nem mesmo pelo nome. Pensando bem: nós não sabíamos nossos respectivos nomes…

Ele desapareceu de repente. Nunca mais o vi e depois de algum tempo, fui perguntar sobre ele, as cozinheiras, mas elas também não tinham notícias dele… Uma delas disse que sentia falta das conversas malucas nas mais distintas manhãs…

Na manhã do dia seguinte, escrevi esse poema para ele e guardei o rascunho certa de que nunca mais o veria… Engraçado é que foi um dos poucos poemas escritos por mim que surgiram prontos:

Todos os meus desejos estão mortos

Silenciou-se minh’alma
meu rosto perdeu a nitidez
Encerrou-se a antiga busca
Não há mais amores
Não há mais sabores
A boca secou-se  – esta ávida
meu olhar se ofuscou, deixou de ver cores!
O sorriso não mais floresce
na face cansada
e meus movimentos agora
são lentos e desordenados…
Encerrou-se de tal forma tua expressão!
Não mais amanheço,
já não mais me conheço.
Não reconheço mais a velha imagem
que se reflete no espelho…
Não vi o tempo passar
mas como foi afinal,
que o tempo passou?

Coletânea Artesanal…

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Mais uma edição do Coletânea Artesanal está no ar, desta vez o tema Femina nos pede um olhar sobre o feminino a partir da arte dos autores convidados:

Adelaide Amorin, André Auke, Barbara Lia, Erica Salatini, Flávia Muniz, Jana Lauxen, Lunna Guedes, Madalena Barranco, Regina Ramão e Suzana Martins.

Convido vocês a saborear mais uma edição editada por:
Lunna Guedes e Suzana Martins

Acessem:
www.coletaneartesanal.wordpress.com