Você já se perguntou como era feito o papel antigamente?
Bem, depois de escrever um texto no qual continha a palavra “Florete” me dei conta que a maioria das pessoas não fazem idéia do significado dessa palavra. Então, resolvi escrever a respeito.
Antigamente, o papel era produzido nos moinhos papeleiros que eram construídos próximos a água. Sua função era múltipla, pois não só servia como uma fonte de energia para activar os maços de refinação (mediante rodas hidráulicas), como também para lavar, refinar e branquear as pastas e ainda como meio imprescindível no processo de formação da folha de papel. Assim, nas zonas geográficas de tradição papeleira podem ainda observar-se muitos edifícios, que outrora foram moinhos de papel, a pouca distância uns dos outros e sempre junto ao rio. Estes edifícios não só acolhiam a actividade laboral como também alojavam os seus artesãos. Famílias inteiras, incluindo crianças, dedicavam-se à produção de papel a um ritmo vertiginoso, vivendo por vezes em condições insalubres devido à humidade, falta de luz e ao ruído ensurdecedor produzido pelos maços ao golpear nas tinas.

Um moinho papeleiro era geralmente estruturado em três pisos distintos. Na cave situavam-se as zonas dedicadas a fabricação do papel propriamente dito. Precisamente por se tratar de caves, tornava-se possível a ativação das principais máquinas a partir da força da queda d´água situada a um nível superior. Devido a este desnível tornava-se impossível trabalhar com luz natural pelo que era imprescindível o uso de lamparinas de azeite. Na cave encontravam-se, para além da área das máquinas junto ao rio, três zonas de trabalho bem delimitadas. Uma dedicava-se à preparação da matéria prima (quase sempre o trapo) antes de ser refinada. Outra na qual se formavam as folhas de papel e, por último, uma zona onde se efetuava a colagem dos suportes.
O rés-do-chão e o primeiro piso destinavam-se, quase sempre, à habitação do proprietário e dos trabalhadores. Albergava também as cozinhas, a área das refeições e um grande espaço onde se realizava a manipulação do papel seco. Aí selecionava-se e empacotava-se o papel para a sua distribuição final.
O piso superior, designado de “miradouro” era a zona destinada à secagem das folhas. Daí as numerosas janelas presentes na fachada do edifício através das quais se controlava a circulação de ar.
O sistema artesanal de produção de papel envolve sempre três fases de trabalho fundamentais: a primeira consiste na preparação da pasta - a segunda na formação da folha até à sua saída da prensa - e a terceira o acabamento, que se inicia no processo de secagem e termina com o papel pronto para ser usado.
Preparação da pasta de papel
A preparação das pastas principia na selecção das fibras. Se a pasta é feita partir de plantas, o artesão deve desfaze-las e fervê-las com um agente basificante até conseguir isolar a fibra, lavando-a e aclarando-a depois para passar à sua refinação. Mas se a pasta é feita a partir da reciclagem de trapos, o processo era bastante similar.
Quanto o trapo chegava ao moinho: este era limpo, sacudido e lançado ao ar de forma a eliminar grande parte das poeiras. Este era um dos trabalhos mais duros do moinho e era vulgarmente desempenhado por mulheres. Em seguida, os trapos eram separados consoante a sua qualidade – primeira, segunda, terceira e florete, o qual era um trapo branco de linho, de algodão ou do melhor cânhamo, que servia para preparar a pasta de qualidade superior.
Uma vez classificado, o trapo era cortado com a gadanha, separando botões e abrindo as costuras. Em seguida eram passados pelo pisão, um aparelho de madeira de forma cônica, ou hexagonal, que girava em torno de um eixo longitudinal sacudindo os trapos depositados no seu interior com o intuito de separar as impurezas.
Por fim o trapo era amolecido durante vários dias ou semanas, dependendo exclusivamente da sua qualidade. Por exemplo, o linho de melhor qualidade não era tão fácil de desintegrar como o de qualidade inferior, assim como o linho novo demorava mais tempo que o linho usado.
Refinação
Os primeiros sistemas de refinação utilizados pelos chineses foram manuais e mediante o auxílio de tração animal. Os árabes introduziram a energia hidráulica, na qual a água acionava os martelos batedores. Estes martelos ou maços caíam dentro das pias golpeando com uma força brutal.
Confecção da folha de papel
Após a refinação, a suspensão aquosa de fibras celulósicas era recolhida nas tinas, as quais constituíam, na realidade, o centro nevrálgico da produção de papel. Nesse momento, o operário fazia submergir um molde formado por dois componentes – a forma e o marco – dentro da tina. Em seguida o molde era retirado num movimento de vaivém suave de modo a distribuir homogeneamente a pasta de papel e evitar a formação de ourelas mais espessas de um lado do que do outro. Após o escorrimento da água o molde era passado a outro operário, o qual removia a contra-forma do molde e transferia a folha formada e ainda muito molhada para o burel que estava no banco onde se colocavam as folhas. Seguidamente devolvia o molde ao operário inicial e colocava um novo burel sobre a folha. Um outro operário, designado de Levador estava encarregado de separar as folhas dos buréis e de as colocar na prensa.