Quantas pessoas existem em você?
Sempre gostei de criar falsas ilusões – na juventude poucas vezes eu fui eu mesma. Queria ser tantas coisas que não podia simplesmente ser apenas eu mesma porque, por alguma estranha razão, isso parecia tão pouco pra mim…
Lembro que escrevi o texto “Janela da Alma” que falava justamente disso – era mais um delírio a cerca de um personagem que lê Fernando Pessoa e por alguma razão pensa que é Álvaro de Campos – em meio a sua loucura, ele viaja para Portugal e começa a encontrar possibilidades várias que o levam a ter certeza de sua mais nova loucura – ele conclui no final do texto “eu sou o outro que nunca soube que era – já não posso mais me esconder e se alguém descobrir a verdade que há na minha derme? Que faço eu? Não posso deixar que descubram esse outro que há tanto tempo se esconde aqui – Fernando não aceitaria tal revelação – ele me queria em silencio – apenas observando suas esferas. Espere, mas e se Fernando também for um outro que não ele mesmo? Quem será ele então?” E ele observa atentamente os passos que passam por ele, busca sinais que o indique uma possível direção. Agarra um que passa e pergunta “É você o outro que não eu que não aquele, que não você mesmo?” O susto leva o homem a livrar-se apressadamente daquele insano e corre para longe e este conclui “não era ele mesmo”.
“Será que devo procurar Caeiro? Meu Mestre? Mas este morreu – eu não – Fernando sabia que eu não poderia morrer, que eu era mais forte que ele. Que os anos não eram pra mim – era para mim apenas a dor de não saber ao certo esse outro que sou e de amar aquele que nunca fui e desejar o que não era pra mim. Tormento meu. Quero que finde meu pensar. Quero silencio e se o silencio só for possível na morte? Então o que faço eu?”
O personagem, claro, se joga do alto da ponte, num vôo que o faz lembrar os pássaros que ele costumava observar de sua janela, enquanto lia Fernando Pessoa sem saber quem era até então. A questão é que ele nunca soube a verdade sobre si mesmo, de tão desatento que era… Ele sente o cheiro do mar – o toque das nuvens e num último instante enxerga Pessoa sentada na mesa de um bar e chama por ele, mas ele está ocupado demais tecendo um poema onde se despede de Álvaro que de certo não poderia morrer. Então Pessoa desiste de sua morte, amassa a folha e a joga no lixo, enquanto este voa de encontro a si mesmo – já que nunca esteve realmente vivo.
O corpo do jovem alucinado é observado pelas pessoas que o rodeiam sem entender sua atitude – pareciam inconformados “ele parecia feliz em saltar” – “era tão jovem” – “será que estava drogado?” e logo chega a ambulância para recolher o corpo.
—————————-
Fernando Pessoa fora intitulado de “Psico Maníaco Depressivo” pela psicologia recentemente – eu apenas ouso classificá-lo como Gênio – sim, porque acredito que suas atitudes não foram insanas, foram apenas fruto de uma vontade que se apodera da maioria dos que sabem tomar para si o dom de criar – eles desejam o cenário perfeito, a conquista da atenção plena – o marco como sendo único. É preciso ser diferente para se permitir a história.
Creio eu que Pessoa pesquisou atentamente a alma humana antes de escolher esse caminho – antes de criar seres dotados de detalhes perfeitos. Vidas que se distanciam e se aproximam e creio eu que, muito antes de criar Álvaro de Campos, ele tentou várias vezes, através de muitos outros personagens, mas nenhum deles alcançou a perfeição esperada, como no caso de Álvaro que muito embora tenha uma data de morte – há escritos dele que sobrevivem ao fato, como forma de emanação. A perfeição foi tamanha, que nem mesmo a morte pode com isso.
Confesso adorar a Pessoa de Álvaro de Campos – em algum tempo atrás, era Caieiro que me fascinava… Mas a maioria das coisas se transformam de acordo com os nossos passos.
E você, consegue identificar quantas Pessoas há em você?
Arquivado em: Psicologia, personagens | Etiquetado: Alvaro de Campos, Caeiro, Fernando Pessoa, Freud, Psicologia










é um exagero do povo classificar a pessoa como maníaca depressiva!
Eu gosto de dizer…tenho várias em mim, diversos sorrisos, um para cada ocasião…Vários pensamentos, várias formas de escrever…E não me acho uma esquizofrênica rsrs
beijos meus
Somos vários.
Quando ouço alguém dizer que trata todo mundo igual, procuro esconder meu sorrisinho irônico. Ninguém trata a própria mãe, o padeiro, o chefe ou patrão, o menino no semáforo ou o guarda que saca o talão de multas do mesmo jeito. Nos adaptamos à situação e vamos nos modificando, assumindo outras personalidades, características que não possuímos normalmente.
Nem sei se a psicologia explica isso, mas, se explicar, por favor não me conte.
Nossa Lunna!
esse é de arrepiar. Uso tantas máscaras, represento tantos papéis,
sem contar as várias pessoas do meu Eu bebê, Eu criança, Eu adolescente, Eu adulta,
que constituem o meu Eu como pessoa.
Beijos
Jacinta
O nosso eu é um mosaico de vários nós.
Sem dúvida cada um de nós tem seus vários “universos paralelos”. Não sei se isto traz a felicidade, mas traz um certo equilíbrio.
Um beijo.
òtimo post, e as homenageadas tem opiniões fortes tanto quanto femininas sobre todos os assuntos. A sociedade deveria aprender a olhar todas as questões tanto sob o prisma masculino quanto pelo feminino. Aprenderia mais e seria mais justa.
Querida Lunna, não sou psicóloga, mas se o assunto é “quantos sou” acho que eu entendo um pouquinho disso. Algo que comecei a libertar de mim ao criar e dar vida aos inúmeros personagens, disfarçados em criaturas fantásticas que habitam o Letras de Morango e também minhas histórias que estão ganhando formas em livros. Ah, quanto mais dou vida aos personagens mais livre eu me sinto no mundo real e também da fantasia. Fernando Pessoa, em seu lindo texto, Lunna, é ótimo exemplo disso. Beijos.
[...] pergunta do título é capciosa. Mas não é minha. É da Lunna Guedes – no post O que pensa a psicologia sobre isso? – onde ela discorre sobre uma mania de criar outras pessoas, num post em que revela partes de um [...]
Lunna, que louco! Acabei de escrever sobre isso e encontro esse seu belo post…
Leia o meu quando der:
http://nao2nao1.com.br/sobre-mascaras-rotulos-e-essencias/
Olá!
Eu levei seu texto para uma comunidade no Orkut; dando os créditos: seu nome e o link daqui. Abri um tópico com ele.
Gostei muito! Parabéns!
Saudações,