Semana de Arte Moderna

O pensamento comum
Artigo V

Quando se fala na Semana de Arte Moderna ocorrida em 1922 se deixa de lado informações primordiais – que nos foram cedidas pelos seus mentores: Oswald, Mário, Menotti e muitos outros. Eles tiveram suas impressões, seus motivos e razões para promover a Semana e em suas palavras há justificativas curiosas do porque, por exemplo, a Semana de Arte Moderna aconteceu em São Paulo e não em outra cidade do Brasil. O pensamento de Oswald por exemplo, deixa de lado os dizeres da própria história que menciona apenas o fato de o Rio de Janeiro não estar pronto, para Oswald, mesmo que o Rio assim o estivesse pronto, ainda assim São Paulo estaria um passo a frente da então capital brasileira.

“Se procurarmos a explicação do porque o fenômeno modernista se processou em São Paulo e não em qualquer outra parte do Brasil, veremos que ele foi uma consequência da nossa mentalidade indústrial. São Paulo era de há muito batido por todos os ventos da cultura. Não só a economia cafeeira promovia os recursos, mas a indústria, com sua ansiedade do novo, sua estimulação do progresso, fazia com que a competição invadisse todos os campos de atividade. Desde ginasiano eu me habituava a frequentar uma grande livraria na Rua XV de Novembro. A casa Garraux, onde o editor José Olympio iniciou a sua carreira. Aí se encontravam todas as novidades da Europa. Editoras, livros e revistas sempres foram preocupações paulistas. Assim, uma conjunção feliz de circunstâncias, entre as quais a presença entre nós de dois bons padrinhos, Graça Aranha e Paulo Prado, fez eclodir a Semana no ano do centenário da independência nacional.”

Oswald de Andrade. “O modernismo”- art. cit.

Havia ainda a grande questão a cerca de que a arte moderna era na verdade um grito contido e que precisava ser liberta, no discurso feito por Menotti, verifica-se um tom agressivo, uma chamamento à luta, a declaração de que estavam dispostos a aceitarem as horas difíceis e adversas que estavam por vir. E seriam muitas e Menotti verificou assim o movimento modernista:

“Após a Grande Guerra, a atmosfera internacional revolucionária inovava pensamento e processos que iam mundo afora, desintegrando velhas estruturas políticas e sociais. Esse sopro renovador, tomava, em cada nação, um carater específico. No Brasil, nos colheu no fim do regime feudal, oriundo da monocultura do café. Éramos, até então, culturalmente tributários da fascinação de uma França, então em pleno explendor parnasiano. Eu criara o Juca Mulato, Lobato lançara o libelo de Jeca Tato que, ao lado de Os Sertões, do genial Euclides, era o protesto contra a miséria e a ignorância, a que fora relegado o interland. Minha geração tomou consciência da revolução que se operava no mundo. O grupo da Semana deu-lhe a forma e o sentido nacional. Não foi uma escola, não impôs uma técnica, não formulou um código: formou uma consciência, um movimento libertador a integrar nosso pensamento e nossa arte na nossa paisagem e no espirito dentro da autêntica basilidade.”

Menotti Del Picchia
São Paulo, 13 de outubro de 1994, pág. 12

Ao ler Mário de Andrade, a sensação que fica, que a Semana de Arte Moderna foi bem mais que um grito – é claro que era sábido por eles, o que acontecia na Europa, mas eles não estavam lá. Estavam aqui, em São Paulo, mais precisamente, mas foram as raízes européias que deram argumentos a eles para se libertar do pensamento arcaico:

“O modernismo no Brasil, foi um ruptura, foi um abandono de principios e de técnicas consequentes, foi uma revolta contra o que era a inteligência nacional. É muito mais exato imaginar que o estado de guerra da Europa tivesse preparado em nós um espirito de guerra, eminentemente destruidor. E as modas que revestiram este espirito foram, de inicio, diretamente importadas da Europa. Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas, uuns antitradiconalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, plea “Revista do Brasil”, é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato; é esquecer a arquitetura e até o urbanismo (Dubugras) neo-colonial, nascidos em São Paulo. Desta ética estávamos impregnados. Menotti del Pichia nos dera o “Juca Mulato”, estudávamos a arte tradicional brasiliera e sombre ela escrevíamos; e canta regionalmente a cidade materna o primeiro livro do movimento. Mas o espirito modernista e as suas modas foram diretamente importados da Europa”.

Mário de Andrade
* “O movimento modernista” in Mário de Andrade. Aspectos da literatura brasileira, São Paulo, Martins, 1974

6 Respostas

  1. Eu queria estudar mais sobre o modernismo brasileiro. O problema do rio de janeiro é parar de só se valer das suas belezas naturais. Como moro no Rio, estou me sentindo abandonado. A epidemias da dengue se expande a cada dia.

    SOCORRO

  2. Acho que tudo aconteceu em São Paulo devido ao poderio econômico trazido pelo café, que atraíu pessoas de todas os cantos so mundo e formou uma mentalidade cosmopolita e aberta às mudanças. A Semana de Arte Moderna usou um método europeu para ressaltar a brasilidade. Até hoje temos esta mentalidade de “colonisados”, muitos acham que “o que vem do Exterior é melhor”.
    Beijos.

  3. Lunna, seus textos me fazem ter vontade de viajar pelo tempo e assistir de perto este “grito de liberdade” da arte pronunciado em terras paulistanas. Hoje, eu, você e todos seus leitores também “gritam” a favor da literatura contemporânea e fazemos de todas as semanas algo especial através da blogosfera. Agora, a influência abraça o mundo e não apenas a Europa. Gosto de ler os trechos que você publica sobre os pensadores da época.

    Beijos, sua série me ajuda a entender melhor esse período da história moderna.

  4. adore este texto escrito por você ele retrata esse periodo da historia e nos deixa curiosos para saber com foi realmente que aconteceu, é como se nos estivessimos lá ,realmente vivenciando este fato, adorei:
    continue assim.

  5. eeeeeee

  6. Amei o seu artigo sobre Semana de Arte Moderna!!
    Muito bom, principalmente porque aquela frase de Oswald de Andrade me ajudou a responder uma questão do meu trabalho…
    MUITO OBRIGADA mesmo!!!!
    Continue escrevendo, porque vc escreve mto bm mesmo!
    Parabéns e Deus te Abençoe!

    Roberta

Deixe um comentário