Os personagens da Semana de Arte Moderna
Mário de Andrade
Artigo VIII
Mário de Andrade
“Por esse tempo eu sofria de um complexo de inferioridade orgulhosíssimo. Não vê que pouco menos de um ano antes, eu escolhera no amontoado milionário dos meus versos o que considerava melhor, uns quinze sonetos, e mandara a Vicente de Carvalho. Com uma carta assombrada de idolatria e servidão. E lhe pedia humildemente que me dissesse qualquer coisa, um “não” que fosse, para esclarecer as minhas dúvidas sobre mim. É quase absolutamente certo que Vicente de Carvalho recebeu a minha carta, entregue quase que às mãos dele, num dia em que ele se achava em casa. O que eu sofri de angústia, de despeito, de humilhação, de revolta, nem se conta! E comecei a cultivar um complexo de inferioridade prodigiosamente feliz, que me deixava solto, livre, irresponsável, desligado dos meus ídolos parnasianos, curiosos de todas as inovações, sequaz incondicional de todas as revoltas” (Mário de Andrade)
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Mário Raul de Morais Andrade, o chamado “papa do Modernismo”, nasceu em São Paulo. na Rua Aurora, em 9 de outubro de 1893. Na capital paulista, após o grupo escolar e o ginásio, matriculou-se na Escola de Comércio Álvares Penteado – abandonando 0 curso depois de uma briga com seu professor de Português. No ano seguinte, 1911, ingressou no Conservatório Musical de São Paulo, onde se forma em piano. Jovem ainda, inicia suas críticas de arte escrevendo para jornais e revistas. Em 1917, ano em que trava amizade com Oswald de Andrade, publica seu primeiro livro e “descobre” Anita Malfatti, transformando-se numa das figuras mais importantes de nossa vida cultural.
Foi diretor do Departamento de Cultura do Município de São Paulo e professor de História da Música no Conservatório Dramático de São Paulo. Lecionou História e Filosofia da Arte na Universidade do Distrito Federal (Rio de Janeiro). Voltando a São Paulo, trabalhou no Serviço de Patrimônio Histórico. Morreu em sua casa, em São Paulo, na rua Lopes Chaves, em 25 de fevereiro de 1945. Sua vida é praticamente um poema…
A estréia literária de Mário de Andrade – “Há uma gota de sangue em cada poema” – retrata a I Guerra Mundial e mostra o autor ainda influenciado pelas escolas literárias anteriores à Semana, com poesias que obedecem a normas de estética, como a metrificação e a rima, de nítida influência parnasiana. O próprio poeta afirma que, ao visitar a exposição de Anita Malfatti, em 1917, ficou tão maravilhado com suas pinturas modernas, revolucionárias, inovadoras, que lhe dedicou um… Soneto Parnasiano!
Sua poesia manifesta-se modernista a partir do livro “Paulicéia desvairada”, que rompe com todas as estruturas ligadas ao passado. O livro tem como musa inspiradora, ou melhor, como objeto de análise e constatação, a cidade de São Paulo e seu provincianismo, o rio Tietê, o largo do Arouche, o Anhangabaú, a burguesia, a aristocracia, o proletariado – uma cidade multifacetada, uma colcha de retalhos, uma roupa de arlequim – uma cidade arlequinal. Leia o poema “Inspiração”:
“São Paulo! comoção de minha vida…
Os meus amores são flores feitas de original…
Arlequinal!… Traje de losangos… Cinza e ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…São Paulo! comoção de minha vida…
Galicismo a berrar nos desertos da América!”
Demonstrando não ter sofrido influência alguma, Mário de Andrade dedica Paulicéia desvairada a seu grande mestre, seu Guia, seu Senhor: ele mesmo: Mário de Andrade!
Em toda a sua obra, Mário lutou por uma língua brasileira, que estivesse mais próxima do falar do povo, sendo comum iniciar frases com pronomes oblíquos e empregar as formas de si, quasi, guspe em vez de se, quase, cuspe. Os brasileirismos e o folclore tiveram máxima importância para o poeta, como bem atestam os livros “Clã do jabuti” e “Remate de males”. Ao lado disso, suas poesias, romances e contos revestem-se de uma nítida crítica social, tendo como alvo a alta burguesia e a aristocracia.
“Amar, verbo intransitivo” é um romance que penetra fundo na estrutura familiar da burguesia paulistana, sua moral e seus preconceitos, ao mesmo tempo que trata, em várias passagens, dos sonhos e da adaptação dos imigrantes à agitada Paulicéia.
“Amar, verbo intransitivo conta uma lição de amar, ou a iniciação amorosa do adolescente Carlos, da burguesia paulistana, de novos ricos, apresentada como burguesia industrial urbana, tipicamente brasileira. A professora de amor- contratada para instrutora de sexo pelo pai do rapaz, Souza Costa, em combinação que, para ele, excluía a participação de Laura, a esposa – é Frãulein Elza, governanta alemã, também professora de línguas e piano na família. Sua profissão não a impedia de acalentar, aos 35 anos, um romântico ideal de amor. (…) O núcleo da narrativa é o idílio, a história de amor: a descoberta do amor, sua prática pelo jovem aluno e Frãulein revisitando sua pedagogia e seu sonho, afeiçoando-se, mais do que desejava, a Carlos, sem esquecer, entretanto, a intransitividade do verbo amar…”
Em “Macunaíma”, o herói sem nenhum caráter, temos, talvez, a criação máxima de Mário de Andrade: a partir desse anti-herói, o autor enfoca o choque do índio amazônico (que nasceu preto e virou branco – síntese do povo brasileiro) com a tradição e a cultura européia na cidade de São Paulo, valendo-se para tanto de profundos estudos de folclore. E Macunaíma, no seu “pensamento selvagem”, faz as transformações que ele quer: um inglês vira o London Bank, a cidade de São Paulo vira uma preguiça (animal), e assim por diante, colocando todas as estruturas de pernas para o ar. Macunaíma é o próprio “herói de nossa gente”, como faz questão de afirmar o autor logo na primeira linha do romance, para reiterar a idéia na última linha, procedimento contrário ao dos autores românticos, que jamais declaram a condição de herói de seus personagens, apesar de os criarem com essa finalidade.
Há uma poesia oculta em cada gota de sangue
Eu sangro nesses versos
Tal uma esposa espancada
Eu sou o ódio que ela sente
Por amar aquele que a violentaEu sangro nesses versos
Feito um touro numa arena
Eu sou aquele pano vermelho
Que oculta o sofrimento do touroEu sangro nesses versos
Igual a uma virgem deflorada
Eu sou o prazer maculando
A pureza que ainda lhe restaEu sangro nesses versos
Como uma mãe dando a luz
Eu sou a lágrima que escorre
Quando ela vê que o filho nasceuEu sangro nesses versos
Feito uma poodle no cio
Eu sou o cachorro pulguento
Que insiste em cruzar com elaEu sangro nesses versos
Tal uma árvore numa serra
Eu sou a paisagem vazia
Que surge depois que ela tombaEu sangro nesses versos
Como os pulsos duma suicida
Eu sou a pele da empregada de ébano
Que limpa a morte delaEu sangro nesses versos
Igual ao o Domingo irlandês
Eu sou segunda-feira sombria
Que nasce sobre treze mortosEu sangro nesses versos
Todo sangue que possuo
Eu morro nesses versos
Mas vivo toda eternidadeEu sou o poeta
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Lú,
gostei demais do artigo! Sabe o que eu acho mais legal quando tu escreves? É que tu estuda muito para escrever, e “traduz” de uma forma de fácil entendimento.
Para te falar a verdade, não havia lido ainda nada parecido sobre Mário de Andrade,da maneira como tu o fez. Tu coloca os grandes poetas perto, entende? Gostei demais
beijos meus dona moça
Está dito!
Cheguei atrazada.
Grande pode ser delicado.
Bjs
Querida Lunna, através de você conheço um pouco mais da alma de Mário de Andrade, e também aquelas particularidades que você “pesca” de prateleiras esquecidas e traz a tona para a felicidade desta sua leitora. Hum, qur dizer que Mário aproximou as letras de todos os olhares… Gostei! Beijos de um domingo de garoinha especial.
Lunna, legal que você nos faz descobrir este lado humano de Mario de Andrade, este gigante de nossa cultura. Realmente muito bom este post.
Beijos.