…que não eu!
“Tenho a idade do vento”
Poderia eu dizer tantas coisas no meio da madrugada (meu momento, meu habitat natural) – mas ao longo do percurso, descobri que nada disso realmente importa porque aprendi a não mais atrelar meu ego as coisas que eu faço. É isso mesmo. Eu não sou o que eu faço – eu simplesmente sou o que eu sou.
E se alguém me pergunta o que eu faço, respondo de forma simples e concisa: eu leio, escrevo, amanheço, adormeço, caminho, abandono coisas e pessoas pelo caminho, dou beijo na boca, agarro, largo, cuspo, abraço. Tudo muito simples, tão simples quanto respirar.
Mas há quem pense que eu sou complexa e quem diz isso, jura de pé junto que me conhece. De repente conhece uma outra que não eu. Porque é fato. Existe uma outra de mim por aí. Alguém que olha de lado, não diz uma só palavra e tenta interpretar tudo que vê em palavras. Uma outra que escreve errado e com linhas tortas…
Quanto a mim: não tenho definição exata para minha pele e nem quero ter. Não preciso ter. Deixo os tais rótulos para os outros, porque me sinto humana tanto quanto meu cachorro (aliás, minhas pessoas favoritas são cães – eu conheço todos os cães do meu bairro e eles esperam por mim nos portões com grandes e cercas elétricas).
A realidade para mim é uma forma de desconforto criada por vilões. Um pequeno detalhe que sempre me escapa. Engraçado que eu já ouvi por aí que ser artista é uma vocação dos sentidos, uma inclinação a contemplação – eu confesso que não sei absolutamente nada sobre isso. Talvez porque eu não seja uma artista, afinal, não busco padrões e formas, eu apenas passo e marco a cadência da minha minha própria marcha. Nada mais. Porque a minha verdadeira obra segue sendo confeccionada a cada novo dia.
Minha verdadeira busca consiste em encontrar a forma de silencio perfeita. Escrever faz de mim alguém mais atento. Não me perco, não me encontro e nunca sou a mesma pessoa. Poucos me conhecem. Poucos sabem de mim. E amanhã (enfim) serei outro que não este…
Agora eu vou caminhar e o mundo que pare e me espere passar…
O blog.
Já tive dúzias de blogs antes desse – comecei quando a palavra blog não era sinônimo de compreensão entre a maioria das pessoas. Não era uma ferramenta. Na verdade era algo que poucos conheciam. Eu recebi a proposta no meu email e aceitei o desafio na mesma hora. Tinha lá os meus motivos. O bom e velho Blogger acabou sendo substituído pelo WordPress (mas eu morro de saudades do Blogger) ainda mantenho minha conta lá, vai que amanhã eu mude de idéia. Nunca se sabe, afinal, eu sou vegetariana…
E como muitas pessoas me perguntam a origem do nome Acqua, eu vou explicar ou pelo menos tentar: um dia ainda quero conseguir escrever tudo que penso e sinto numa quantidade imensa de idiomas – mas por enquanto sei apenas alguns e o que mais me dá trabalho é exatamente este no qual escrevo aqui no blog. Não é nada fácil escrever em português do Brasil (como ficou conhecido depois do advento internet). Quando eu falo, não tenho sotaque para o espanto de muitos, mas para escrever, as vezes é como se me faltassem palavras. Em alguns momentos, eu simplesmente travo.
Há dois anos escrevi uma série de poemas em português, sem fazer uso de uma só palavra que fosse do meu idioma original (o italiano) e na hora de escolher o título – o que me ocorreu foi “água“. Mas o som me incomodava, assim como me incomoda o som da palavra “borboleta” que não se parece em absoluto com Farfalla (borboleta em italiano). Parece que estou fazendo referência a coisas totalmente diferentes. Duas palavras com o mesmo significado: água e Acqua – cuja sonoridade me proporcionam sensações totalmente diferentes…
Eu e eu…
Nasci em Gênova no mês de novembro, por isso sou sagitariana (aventureira, saio por aí sem destino e não levo mapas na minha mochila). Nasci no coração do outono (a estação da minha alma). Sou pagã – feliz e comprometida com a vida, com meus cães (tenho dois – um de cada lado do oceano) e com mio amore (a perdição da minha vida – a pessoa que é responsável por eu querer ser sempre melhor a cada novo dia). Adoro a noite, não ligo muito para os dias (eu sei que eles existem e são necessários. Ótimo. Eu sou feliz por saber disso e aposto que você também)…
Adoro a Itália, mas amo São Paulo, esse meu “país”. Aqui eu sou uma cidadã do mundo, sem pátria ou lugar. Gosto de me sentir assim, mas sempre volto para casa e me abandono durante horas no sofá com aquela sensação de “voltar é bom demais”…
Eu vivo no ritmo das músicas que ouço – dos livros que leio e dos filmes que assisto. Agora estou ouvindo Alanis Morrissette: You live you learn/You love you learn/You cry you learn/You lose you learn/You bleed you learn/You scream you learn (…)
Eu leio por aí…
Descobri que a leitura é uma forma servil de sonhar. E se tenho de sonhar, por que não sonhar meus próprios sonhos?
Fernando Pessoa
Aquele outro não via
Aquele outro não via minha muita amplidão
Nada lhe bastava. Nem ígneas cantigas.
E agora vã, te pareço soberba, magnífica
E fodes como quem morre a última conquista
E ardes como desejei arder de santidade.
(E há luz na tua carne e tu palpitas.)Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?
Hilda Hilst
O “verso verdadeiramente livre” é o sopro que aqui se pretende porque como já dizia o Poeta Paulistano Mário de Andrade: “ninguém se liberta duma só vez das teorias avós que bebeu”.
Do livro Cecília e Mário
Vento novo
Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.
Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenescia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.
Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.
Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.
A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.Flora Figueiredo
“Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.” Freud
Tão sutilmente em tantos breves anos
Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.Lya Luft
Contato.
Email/Msn
lunnaguedes@gmail.com













Lunna, você tem razão, somos o que somos, não adianta tentar entender ou teorizar a respeito. Quanto a usar 2 línguas diferentes, conheço o problema de algumas palavras que são intradutíveis na nossa mente, embora exista uma teoricamente equivalente na outra língua.
Um grande beijo.
Você e seus escritos, estou cá a ler e ler e ler. E sempre encontro um triunfo novo. Uma virgula a que ficou devendo atenção da minha parte. Sou suspeita, já sei. Mas sou obrigada a dizer-te. Adorei, está bem melhor que a página anterior, está tem a sua cara. Beijinhos. Eu estou com saudades do novo papo na Casa Fernando Pessoa. Quando virás a cá?
Nossa, adorei sua página. Muito legal. Muito show. Quando você disse ali em cima “Poderia eu dizer tantas coisas no meio da madrugada, mas ao longo do percurso, descobri que nada disso realmente importa porque aprendi a não mais atrelar meu ego as coisas que eu faço” eu fiquei imaginando quanto tempo se leva para descobrir isso, serio mesmo. Eu ainda digo o que sou, quantos diplomas tenho e nada disso sou eu. Muito legal mesmo. Vou voltar muitas vezes aqui.
Muito legal sua página. Gostei muito, muito mesmo, especialmente da sua definição. Meu primo Maurizio te conheceu outro dia, ele é de Gênova, assim como você. Soube que ficaram trocando figurinhas sobre o porto. Ele adorou te conhecer e eu vim aqui pra saber mais e gostei muito do seu blog. Legal.
Lú está demais esta página!!! Vou olhar as outras!
Beijosss
Ficou simplesmente LINDAAAAAAAAAAAAA essa página!
Amei… que bem que a noite te faz… alias, que a noite nos faz… afinal, fazendo bem a você, transformando seu dom em palavras, ficamos felizes, que mesmo de dia… no sol, possamos ler tamanha arte!
Lindo!!!
bjos
Lunna, você se define como uma árvore secular com raízes no passado e as novas florações tocando as nuvens do céu, ansiando por desvendar o futuro nos brotinhos verdes deste presente, que me encanta a cada novo dia por tê-la conhecido um dia no Leia Livro. Obrigada. Beijos.
Aqui está tb o link do meu blog.
Lunna, estou descobrindo seu blog aos poucos. E adorando. Recebi nos meus feeds uma postagem de hoje, 12/11, Lugares de folhas e ventos, que me tocou profundamente. Sempre bom encontrar ótimos e sensíveis textos. Obrigada por compartilhar coisas tão boas da vida. Beijos.
Bom o que dizer de pessoa tão intensa e doce.
que vc realize seus desejos e escreva cada dia mais.
Seja muito feliz!!!
Lunna…
Adorei saber mais sobre vc! Continue a escrever… é bom! Escrevendo, lendo, vivendo agente cria asas…
bjim, Sandra
Como vc faz para colocar esses quadros amarelos no meio do post?
Oi, Lunna
A culpada é a Srta. Bia, que publicou só um pedaço do meme dos 7 pecados (pecados me interessam, sempre). Vim ver e adorei o que vi. Vc está intimada a ser uma mulher que vive em S. Paulo e comparecer ao próximo luluzinhacamp, no dia 7 de março.
Adorei teu blog: já pro blogroll do Luluzinha e já pro GReader (aquele trem vai me mandar colocar feed sabe deus onde não demora muito).
bj
Gostei muito do seu blog ^^ E obrigado por cita-lo em um dos seus posts sobre música japonesa =)
Vou colocar teu blog no roll do meu!
Obrigado mais uma vez, até.
Gostei de conhecer a ’sua história’. Parabéns!